‘Frestas – Trienal de Artes’ transforma Sorocaba em percurso de arte, território e memória

    A 4ª edição da Frestas – Trienal de Artes abre ao público no dia 27 de fevereiro de 2026, no Sesc Sorocaba, reunindo 102 participantes e 188 projetos, entre obras, processos e ações artísticas. Sob o título do caminho um rezo, a mostra ocupa o estacionamento G2 da unidade, convertido em grande galeria, e se expande por outros espaços internos e pontos emblemáticos da cidade, propondo um percurso que articula arte, território e memória urbana até 16 de agosto de 2026.

Com entrada gratuita e classificação livre, a Trienal transforma Sorocaba em campo vivo de experiências estéticas e políticas, conectando artistas do Brasil e do exterior a coletivos, iniciativas comunitárias e referências históricas da cidade.

Curadoria propõe escuta sensível do território

A edição de 2026 tem curadoria de Luciara Ribeiro, Naine Terena e Khadyg Fares, com curadoria assistente de Cadu Gonçalves e Cristina Fernandes e coordenação educativa de Val Chagas. O projeto curatorial parte da noção de “caminho como rezo”, inspirada no pensamento do professor e artista Tadeu Kaingang, no conceito de “Thaki”, presente na cosmologia andina descrita pela socióloga boliviana Silvia Rivera Cusicanqui, e na ideia de “confluência afropindorâmicas”, desenvolvida pelo pensador quilombola Antônio Bispo dos Santos, o Nêgo Bispo.

A proposta entende o caminhar como gesto político e espiritual, afirmando o deslocamento como prática de construção de conhecimento. O público é convidado a percorrer não apenas os espaços expositivos, mas também as camadas históricas e simbólicas de Sorocaba.

“Para o Sesc, a 4ª edição de Frestas é um convite a ensaiar novos passos com a comunidade, reconhecendo no coletivo o potencial de partilha e de criação de mundo. A Trienal reafirma a arte como espaço de encontro, escuta e construção de sentidos em diálogo com os territórios e com as pessoas que os habitam”, afirma Luiz Galina, Diretor Regional do Sesc São Paulo.

Arte ocupa a cidade e ativa a memória

Além das áreas internas do Sesc, a Trienal ocupa espaços externos como a Capela João de Camargo, a Sociedade Cultural e Beneficente 28 de Setembro, o Monumento Pelourinho e o Monumento à Mãe Preta, configurando um circuito que conecta arte contemporânea e patrimônio histórico.

Entre os destaques internacionais está a artista palestina Emily Jacir, que apresenta o filme Letter to a Friend (2019), articulando memória pessoal e conflito geopolítico em Belém, na Palestina. Integrante do povo Waanyi, na Austrália, Gordon Hookey exibe Murriland! 2 (2021), obra que revisita a história de Queensland sob perspectiva indígena.

Nome central da land art britânica, Richard Long participa com A linha feita pelo caminhar [Line made by walking] (1967), trabalho emblemático construído a partir do gesto repetido de caminhar sobre o gramado, criando uma linha visível como registro de deslocamento.

Corpo, território e afirmação

A presença de artistas negros, indígenas, periféricos e dissidentes atravessa toda a mostra, tensionando estruturas de poder e imaginários históricos.

A Plataforma Demonstra reúne artistas com deficiência e propõe um espaço de convivência que recusa a lógica espetacular da exibição. Já em Ah, se eu fosse Marilyn! (2010), o artista baiano Edu O. questiona padrões de beleza e pertencimento, afirmando o corpo como presença crítica no espaço público.

No campo da agroecologia e dos saberes tradicionais, a CAIANAS – Coletivo Ambientalista Indígena de Ação para Natureza, Agroecologia e Sustentabilidade articula preservação de sementes e nascentes como gesto artístico e político. O Projeto Carpinteiros da Amazônia ativa conhecimentos ancestrais de comunidades ribeirinhas e quilombolas do Pará, valorizando a carpintaria tradicional como arquitetura viva.

Espiritualidade e ancestralidade negra

A dimensão espiritual é um dos eixos centrais da Trienal. Em Deus tá vendo (2025), o artista paulistano No Martins instala na ponte estaiada da unidade uma cruz com a frase que dá nome à obra, provocando reflexão sobre imaginários religiosos e mecanismos de controle social.

Já em Sete cantos para pai João de Camargo (2026), Moisés Patrício constrói, em parceria com o Sesc Sorocaba e a Capela Senhor do Bonfim João de Camargo, uma instalação sensorial e devocional que dialoga com a religiosidade negra da cidade e com o legado espiritual de pai João de Camargo.

Rio Sorocaba como corpo vivo da mostra

O Rio Sorocaba é incorporado à lista de participantes da Trienal, tratado como corpo de memória e disputa. A obra coletiva Memórias do Rio: ecos de resistência (2026) reúne Discórdia, Étore Piqueira, FLAMAS – Fórum da Luta Antimanicomial de Sorocaba e Margarida Libre, conectando violências históricas da cidade às ameaças ambientais contemporâneas.

A relação afetiva com o curso d’água também aparece em O rio que rasga a minha cidade, do artista sorocabano Júlio Veredas, e em Dança um rio onde eu nasci (2026), do performer Douglas Emilio, que parte de suas memórias de infância em Votorantim para construir uma escuta corporal do rio.

Programa público amplia o diálogo

O programa público Sendarias acompanha a Trienal com conversas, oficinas-vivência, performances e ativações iniciadas ainda em agosto de 2025. No dia 26 de fevereiro, o Teatro do Sesc Sorocaba recebe o encontro “Sendarias: Conversa com os Conselhos Territorial e Conexões”, compartilhando com o público os processos de escuta e articulação que fundamentaram a edição.

Acessibilidade como prática coletiva

A acessibilidade integra a concepção da mostra desde a expografia. O projeto inclui mapa sensorial, narrativa visual do percurso, videoguia em Libras acessado por QR Codes, audiodescrição por tecnologia NFC, comunicação alternativa, maquetes táteis e visitas guiadas em Libras.

A proposta entende o espaço expositivo como território de encontro entre diferentes corpos, percepções e formas de presença, reforçando o compromisso da Trienal com inclusão e participação ampliada.

Serviço

Frestas – Trienal de Artes 2026
Abertura: 27 de fevereiro de 2026
Período expositivo: 28 de fevereiro a 16 de agosto de 2026

Local: Sesc Sorocaba – Rua Barão de Piratininga, 555, Jardim Faculdade
Horários: Terças a sextas, das 9h às 21h30; sábados, das 10h às 20h; domingos e feriados, das 10h às 18h30
Entrada gratuita

Mais informações: sescsp.org.br/frestas

Ao ocupar espaços institucionais e pontos simbólicos da cidade, a 4ª edição de Frestas reafirma a arte como gesto de caminhada coletiva. Um percurso que atravessa memórias, conflitos e espiritualidades, convidando o público a experimentar o território como lugar de escuta, criação e transformação.

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